Reflexões Maçónicas, Prancha de Instrução
A finalidade desta prancha é abordar de forma meditativa algumas matérias Maçónicas que são pilares formais e substanciais na existência da nossa Augusta Ordem.
A escrita tripontuada
Estou convicto de que muitos maçons desconhecem a origem da escrita tripontuada que caracteriza o discurso impresso maçónico.
Observemos a sequência de quatro pares de letras maiúsculas, cada par seguido de três pontos formando um triângulo equilátero, quer dizer, de três lados iguais. Elas são: MM:. LL:. AA:. AA:.
Isto é a escritura tripontuada adoptada pela Maçonaria; porém a escritura tripontuada não foi criada pela Maçonaria.
O primeiro documento maçónico conhecido que utiliza a escritura com três pontos é uma circular do Grande Oriente da França, datado 12 de Agosto de 1774, comunicando novo valor da anuidade e mudança de local.
Lennhoff, no Dicionário Maçónico Internacional, diz que os três pontos aparecem já em antigos escritos monacais, conservados na Biblioteca Coraini, Roma.
Na Corte Pontifícia de Roma existia um tribunal denominado “Tribunal da A:. C:.” que para uns era Augusta Consulta e para outros Auditor Camarae.
O significado simbólico dos três pontos está, evidentemente, relacionado com o Ternário e como todos nos sabemos, o significado é variado e abrange todos os símbolos relacionados com o número três. O primeiro ponto é o criador, a origem de tudo o que existe, o Uno, a Monada, o Princípio Fundamental, a Unidade. Os dois pontos inferiores são a Dualidade, eles são gerados pelo primeiro ponto e, se juntarem voltam a ser a Unidade da qual tiveram nascimento.
O ponto superior corresponde ao Oriente em Loja, o mundo absoluto, o Delta Sagrado, e os dois pontos inferiores correspondem ao Ocidente ou mundo relativo, as duas colunas como emblema da dualidade.
As letras repetidas, indicam que a palavra está no plural; vejamos o primeiro par de MM, que significa neste caso Maçons, e que identifica aquelas pessoas que merecem serem chamadas de Maçons porque foram regularmente iniciadas em Loja.
O segundo par de letras é LL, significa Livres indicando que a consciência do Maçon não está sujeita a compromissos de tipo religioso, moral, político ou outro que possa comprometer a sua disponibilidade para e com a mente livre receber novos ensinamentos.
O terceiro são dois pares de letras AA, sendo que o primeiro significa Antigos e o segundo Aceitos. V/site da Loja Maçónica do Estado de São Paulo
Utiliza-se por regra a primeira sílaba e a 1ª consoante da segunda seguida dos / singular, duplicando a primeira letra no plural.
Porém, não existe um quadro instituído, e as variantes são tantas considerando a extensão da expressão e a excepcional riqueza barroca da escrita maçónica, que cada maçon deve gerir a aplicação da escrita tripontuada conjugando os indicados princípios básicos com o sentido estético do próprio texto.
A Iniciação
Desde o paleolítico o curso das existências humanas foi modificado a partir dos ritos. A iniciação é um rito de passagem, a transferência de um estado vulgar para uma fase mais elevada.
Na maçonaria o neófito está só, reflectiu sobre a sua atitude, mas não pode conhecer o pensamento esotérico da ordem, deve pois sofrer ritos que o fazem penetrar num mundo desconhecido.
Sofre um choque emocional, a partir de símbolos que o vão impregnar, fazê-lo admitir uma outra concepção de vida à qual acede por meio de um renascimento.
Qualquer iniciação insiste nas palavras luz e trevas, como no evangelho de João, porque iluminação é sinónimo de suprema sabedoria e de divino conhecimento.
A fim de mostrar que o passado está abolido, que o ser acede a um novo mundo, o iniciado toma um novo nome.
As provas desenrolam-se no meio de algazarra, de facto o iniciado deve enfrentar ao mesmo tempo os tumultos do mundo e a confusão da própria mente a fim de aceder à grande paz silenciosa que está por detrás de todas as aparências do universo fenomenal.
O Venerável
Todas as lojas seja qual for o rito são por princípio presididas pelo venerável.
Venerável vem do latim Venerabilis o que significa louvar os deuses, prestar um culto, honrar por meio de cerimónias.
De facto o dirigente de uma loja honra o Grande Arquitecto do Universo que pode traduzir da dimensão do homem enquanto centro do universo ao sentimento de pequenez face à dimensão do universo.
Mas pode também observar-se que o verbo venerar tem por raiz Vénus, deusa do amor e da beleza, que segundo Virgílio significa também semente genital.
“Veneris” é aquele que pode engendrar, semear, cabe de facto ao dirigente de uma loja estimulá-la transmitir-lhe o fôlego espiritual.
O Grande Arquitecto
Quanto à noção de Grande Arquitecto do Universo na maçonaria, esta é ao mesmo tempo mais ampla e mais limitada que a de Deus das diferentes religiões.
Corneloup, membro do grande colégio dos ritos do Grande Oriente de França, publicou na revista “Simbolisme” uma defesa do Grande Arquitecto do Universo a todos os títulos notável.
O Grande Arquitecto do Universo simboliza, diz ele: é o princípio reitor da Maçonaria e do Universo.
Trabalhar para a glória do Grande Arquitecto do Universo, pode significar, ou trabalhar sob o signo de Deus ou trabalhar sob inspiração da consciência colectiva da humanidade, ou ainda trabalhar com o princípio reitor que orienta para o progresso a evolução do mundo e da humanidade.
O Templo
O Templo na perspectiva Maçónica é imaterial, todas as designações ou versões referem um único Templo.
É fechado e fisicamente adimensional e só mensurável no tempo; é composto pelos maçons de hoje e pelos de ontem.
Um portal por onde fluem energias positivas que só existem como resultado da contribuição dos maçons reunidos.
O Templo é a tecedura ou suporte fundamental da maçonaria em todos os seus graus do escocismo.
As Constituições de Anderson de 1717 foram revolucionárias, estabeleceram os fundamentos da Maçonaria especulativa, romperam com a religião do estado e deixaram a cada homem as suas opiniões ou confissões, promovendo ou facilitando pela primeira vez na história uma fraternidade universal.
Embora a parte doutrinária das Constituições seja vista com alguma distância por parecer muito efabulatória, penso que James Anderson tem algum fundamento histórico quando refere na Constituição de 1723 “que os israelitas ao deixarem o jugo Egípcio em 1.250 a.C. formaram um Reino de Maçons sob a chefia de seu Grão-Mestre Moisés”.
Atendendo aos marcadores da história observa-se que o movimento dirigido por Moisés está na origem do Templo e parece o mais marcante das remotas origens da Maçonaria.
Os trabalhos nas construções Egípcias, operativos, desenvolveram a Geometria, conferiram destreza na utilização do esquadro e prepararam a aplicação do compasso.
Moisés foi o primeiro Grande Iniciado que encontrando dentro de si um núcleo fundador de saber civilizacional – o decálogo, que possibilitou que um grupo humano pela primeira vez percorresse um caminho iniciático.
Mikhail Bakhtin afirma que todo processo criativo tem um carácter intertextual e outro interdiscursivo: ao produzir uma obra o autor nunca está só, havendo “outras vozes”, “outros discursos” o dialogismo e a polifonia que acompanham essa criação e que o ajudam a compor.
O decálogo, fonte do Direito Universal, é um enunciado simples, directo, inovador enquanto sistema e de fácil compreensão por uma população sequiosa de ordem.
Relevando a época e a circunstância, foi o primeiro contrato social de homens livres. Estão presentes normas básicas para um convívio não conflitual, ressalvando a vida e a propriedade e o respeito pela espiritualidade.
Moisés ignorou o modelo milenar do autoritarismo arbitrário e da autoridade natural e instituiu uma codificação embora primária com deveres e direitos implícitos, mudou o paradigma.
A passagem do estado natural ao civil produz transformações no homem, substituindo o instinto pela justiça e conferindo moralidade às suas acções.
Com o contrato social, o homem perde a liberdade natural e o direito ilimitado sobre as coisas. Em contrapartida, ganha liberdade civil, liberdade moral e propriedade do que possui.
A liberdade moral é o que torna o homem senhor de si, enquanto o impulso do mero apetite é escravidão. Jean-Jacques Rousseau
O Tabernáculo protegeu o supremo bem, a primeira formula que permitiu que o homem começasse a ser igual entre os demais e a partir da qual se recriasse.
Paul Sartre: diz que o homem não foi planejado por alguém para uma finalidade, como os objectos que o próprio homem cria, mediante um projecto.
O homem faz-se em sua própria existência.
Camino, traduz a postura iniciática e original, uterina, de Moisés, ao dizer: Um sentimento invencível impõe-nos a confiança, uma atracção irresistível liga-nos ao Universo, a todos os seres, ao Infinito impenetrável.
Houve cinco Templos associados ao Monte Moriá na cidade de Jerusalém:
O Tabernáculo, depositário da Arca Sagrada e maqueta do Templo aspirado, que vogava pelo deserto acompanhando o percurso iniciático.
O Templo dos Templos, preconizado pelo rei Davi e erguido pelo rei Salomão, tinha uma planta muito similar à Tenda ou Tabernáculo, a diferença residia nas dimensões internas do Sanctus e do Sanctus Sanctorum, sendo maiores do que as do tabernáculo.
O seguinte nunca existiu: apareceu em uma visão do profeta Ezequiel durante a escravidão dos judeus na Babilónia por volta de 570 a.C.
O quarto foi construído pelo rei Zorobabel após o retorno dos judeus de seu cativeiro da Babilónia em 539 a.C.
E o último Templo foi erigido por Herodes na época de Jesus Cristo e foi destruído pelos romanos em 70 d.C., apenas quatro anos depois de sua conclusão.
O maçom serve-se especulativamente do inesgotável repositório de ensinamentos velados por alegorias que nos proporciona a narrativa da construção do Templo do Rei Salomão.
O Templo de Salomão é o ideal jamais terminado, onde cada maçom é uma pedra preparada sem machado nem martelo nos silêncios da meditação.
Tem por materiais construtivos a pedra, a madeira de cedro e o ouro: a estabilidade, a vitalidade e a espiritualidade.
A maioria dos símbolos utilizados em templos maçónicos mostra em seu centro a principal busca que cada maçom deve fazer: a descoberta de sua espiritualidade.
Os Símbolos e os Ritos
Os símbolos e os ritos são partes consistentes e inseparáveis de todo o homem como ser social e o suporte da sua consciência cósmica.
Os símbolos e os ritos estão estritamente associados pela sua natureza. Na verdade todo o rito comporta necessariamente um sentido simbólico em todos os seus elementos constitutivos e inversamente todo o símbolo produz para quem o adopta efeitos comparáveis aos dos ritos.
Pode dizer-se que o símbolo quer como figura gráfica ou outra, em boa medida mais não é do que a fixação de um gesto ritual.
A própria palavra não é senão um símbolo da ideia que está destinada a exprimir e que integra um rito.
Há pois símbolos de toda a natureza, gráficos, objectos, visuais, orais, sonoros, por sinais e outros que produzem igual efeito de estabelecer ligações, sugerir ou exprimir ideias ou criar comunhões.
Pode compreender-se sem dificuldade que todo o rito é literalmente constituído por um conjunto de símbolos e que por isso os ritos são símbolos colocados em acção e que todo o gesto ritual é um símbolo actuante.
Os símbolos permitem a transmissão da mensagem e veiculam os elementos centrais das ideias para além das diferenças de cultura e da civilização, pois são intemporais.
Os símbolos constituem a linguagem natural dos principais mitos da humanidade, implicam uma concepção global do cosmos integrando o universo físico dentro de uma estrutura espiritual.
O simbolismo é a linguagem da ascese que para além do tempo e do espaço liga a dimensão individual à escala cósmica, supra-individual.
Os símbolos não são só elementos transformadores da energia psíquica, modificam a natureza secreta dos homens e acolhem leis profundas que exercem um profundo poder sobre a natureza do ser humano.
O símbolo exprime-se no interior do ser, e ninguém está em condições de relatar por palavras o efeito produzido, tal experiência só se pode partilhar dentro de uma comunhão silenciosa.
O pensamento maçónico serve-se deste simbolismo e deste esoterismo universal que ultrapassa todos os conceitos, todas as religiões, todas as sociedades humanas.
O segredo
Nenhum franco-mação consegue uma definição única ou satisfatória de segredo.
Tudo o que se faz na loja deve ser secreto.
Aqueles que por uma indiscrição desonesta não tiveram escrúpulo de revelar o que aí se faz, não revelaram de modo algum o essencial. Como podiam revelá-lo se não o sabiam? Se o tivessem sabido não o teriam revelado, diz Casanova nas suas memórias.
Não se trata de um mero segredo de ofício em que se guarda para si o que se soube dificilmente e que se comunica apenas aquele que se mostrar digno.
O segredo iniciático tem uma natureza espiritual, destila-se dos símbolos que animam os ritos.
Trata-se de uma sabedoria da profundidade informulável, em que o neófito não pode penetrar senão através das suas próprias possibilidades, segundo o estado de avanço de uma realização interior.
É um valor que não pode ser comentado, o seu mistério traduz não a incompreensão mas sim o inexprimível o incomunicável e o mito tem por função exprimi-lo em silêncio, sob a forma de um relato simbólico.
Como refere Lubiez: O que é visível é o reflexo daquilo que é invisível. Nunca houve em nenhuma tradição a vontade de esconder seja o que for com auxílio de símbolos. O enigma não reside na coisa mas resulta da nossa inteligência e da nossa pureza moral.
O esoterismo não pode ser encerrado num língua profana, precisa de uma linguagem muda pelo que é confiado aos símbolos e aos ritos cujo conteúdo vivo aponta para uma realização intraduzível em palavras ou conceitos.
Para chegar à essência refira-se a doutrina do Cardeal Nicolau de Cusa (1401 a 1467), que nos induz a eleger a ignorância como forma de nos libertarmos da opinião. Esta teologia negativa que refere que a inteligência deve aceitar a renúncia e o despojamento para melhor se encontrar a si mesma, encontra-se nos rituais maçónicos e permite aceder à essência do sagrado.
O segredo maçónico não consiste por isso em guardar os nomes dos irmãos nem segredos de ofícios como na maçonaria operativa.
Num ritual do 12º grau diz-se: “Seria um mal que um homem surpreendesse o nosso segredo? Não, seria um grande bem, porque faria mais um irmão.”
O segredo maçónico é um segredo iniciático para cuja acessão se pressupõe, disponibilidade sem limites, despojamento sem reserva, humildade por fundo e com a certeza de que nada se deve esperar.
Trata-se de um processo intuitivo, impossível de encerrar dentro de qualquer formulação.
A palavra perdida
O segredo maçónico pode estar ligado à procura da palavra perdida.
A palavra simboliza a manifestação do ser, não apenas de um ser superior mas de cada indivíduo que sinta que reflecte parte de um todo.
O verbo preexiste à criação, é a verdade a luz do ser. É movimento e vida e todas as línguas, forças cores e virtudes residem no verbo.
Esta palavra fecundante, germe da criação, ou como quem entende, primeira manifestação divina, não existe apenas nas religiões; nas concepções cosmogónicas de todos os povos encontra-mos esta mesma ideia de um verbo original, de um fôlego primordial de uma vibração inicial.
A palavra é deste modo honrada como valor sagrado; o homem deve preservar este bem precioso se não quer ser maldito. Assim é necessário assegurar a transmissão do segredo contido na palavra.
No terceiro grau uma palavra nova substituiu-se provisoriamente à palavra perdida que o Mestre Arquitecto Hiram levou para o túmulo.
Os maçons interrogam-se; será que não se pode encontrar a palavra sagrada? - Haverá outro mestre a possuir esse inigualável segredo?
A busca inicia-se no 3º grau do rito Escocês Antigo e Aceite e é normal que os altos graus que como sabemos comportam até ao 33 se enfoquem neste tema.
Em todas as tradições faz-se alusão à perca do nosso estado original, primordial. Há necessidade de reencontrá-lo, é assim como exemplo: o Soma dos Hindus (sangue do conhecimento), o Haoma dos Persas (a bebida da imortalidade) ou Graal dos cristãos e a perca da pronúncia do grande nome divino dos judeus.
A palavra perdida da maçonaria simboliza assim os segredos perdidos da iniciação verdadeira.
Na nossa civilização voltada para o materialismo só possuímos substitutos, pelo que a palavra substituída é ela mesma deformada e de palavra sagrada se transformou numa palavra de passe.
No caso da lenda de Hiram, a comunicação ritual só podia fazer-se com o concurso dos três primeiros grão-mestres: Salomão, Hiram rei de Tyr, e Hiram Abi.
Representariam os três lados do triângulo rectângulo que é, aliás, o esquadro do Venerável; a palavra torna-se assim justa e perfeita.
Que a palavra perdida no 3º grau seja a que foi encontrada no 13º grau ou no 18º grau ou que não passe ainda de uma palavra substituta, tem uma importância menor, porque a procura da palavra perdida é uma longa busca que não pode terminar, é uma procura perpétua dirigida ao absoluto.,
Compete a cada maçom viver a palavra perdida, tentar que se aloje no mais profundo do seu ser sem passar pelo filtro deformante dos conceitos e da linguagem.
Galileu M:. M:.
Janeiro de 2010
Bibliografia:
CAMINO, Rizzardo da. Dicionário Maçónico
BAUCHER, Jules. A Simbólica Maçónica
HUTIN, Serge. As Sociedades Secretas
BAYARD, Jean-Pierre. A espiritualidade da Maçonaria
HORNE, Alex. O Templo do rei Salomão
DYER, Colin. O Simbolismo na Maçonaria
D’ASSAC, Jacques Ploncard. O Segredo da Maçonaria
Colocado: 21 de Janeiro de 2010 - 03:59 em Pranchas.
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